Friday, August 08, 2008

O Modo Como Às Vezes As Coisas Acontecem

Hey!

Faz uma cara que não escrevo um conto. Claro, temos aí "As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury" mas é um texto em série (que, por sinal, comecei em 2005) e por isso não conta.

A real é que eu nem sei por que parei. Acho que é porque, no fundo, gosto mesmo é de fazer diálogos. E, nesse caso, roteiros são mais legais.

Em outros tempos, porém, publiquei alguns contos na finada Dragão Brasil e vira e mexe alguém me pede para enviar algum deles por e-mail. O campeão de pedidos é, sem dúvida, "O Modo Como Às Vezes As Coisas Acontecem". O que particularmente me deixa muito satisfeito, já que até hoje acredito que este conto seja uma das coisas mais legais que já escrevi.

Por conta disso resolvi postar aqui o dito cujo, mantendo os erros cometidos na juventude e tudo mais. Para o post não ficar tão pesado, vou dividir em duas partes.

O curioso é que essa história foi feita originalmente para um trabalho de faculdade (não lembro a nota. Acho que foi 9). Era uma versão mais enxuta e tive o cuidado de inclusive escrever as partes dos personagens com estilos de letras diferente (na mão mesmo. Naquela época computador e impressora eram luxo). É o tipo de preciosismo que a gente só tem quando é moleque mesmo.

Enfim, espero que quem ainda não conhece o conto se divirta. E quem já conhece tem a chance de relembrar.

O Modo Como Às Vezes As Coisas Acontecem
Parte 1

Tudo bem. Por onde eu começo? Ah, OK. Sempre fui um cara normal. Tão normal quanto qualquer garoto de dezenove anos deve ser. Não fumava, não me drogava (tudo bem, experimentei maconha uma ou duas vezes mas isso todo mundo faz. . . ). Bebia às vezes no que poderia facilmente chamar de ocasiões sociais, mas isso também é normal. O fato, até onde ainda consigo me lembrar, é que eu era um garoto como qualquer outro. Do tipo que podia passar facilmente por seu filho.

Talvez eu até seja bem parecido com ele. Cabelo comprido até a altura do queixo, camisa de flanela à moda dos caras de Seattle, calça rasgada e tenis surrado. Devem existir pelo menos duas duzias de caras iguais a mim só nessa cidade. É como eu disse antes, eu era nada mais que um cara normal. Igualzinho a todo mundo.

Bem, pelo menos é o que eu costumava ser antes da merda voar no ventilador e o tal homem -de -chapéu -e -sobretudo ferrar com tudo. É nessas horas que eu penso como Deus deve ser sacana. Não sei porque diabos, mas sempre imaginei o Homem com o rosto do Al Pacino. Confiável, mas mesmo assim com aquele ar ironico e cínico. Do tipo que te olha com ternura mas que, se Ele assim desejar, pode por no seu rabo assim que você virar as costas. . .

O mais engraçado de tudo é que justamente aquela segunda feira tinha tudo para ser um dia como outro qualquer. Todo mundo tá cansado de saber como funciona qualquer segunda feira. Pela minha propria definição, é um dia que mistura "a falta do que fazer com a vontade de não fazer nada". É lógico que isso só funciona se você for um adolescente inconsequente, um vagabundo completo ou os dois. Quando se tem mulher e filhos para dar de comer e o senhorio bate na porta pelo menos três vezes por dia para cobrar o aluguel atrasado, a coisa muda de figura. Felizmente este último não era o meu caso.

Minha idéia para aquela estupidamente tediosa tarde era bem simples:ficar na sala de estar bem na frente da televisao, comendo um daqueles pacotes tamanho família de Sucrilhos ("mais duzentos gramas pelo mesmo preço") e tomando suco de laranja enquanto assistia a uma fita de vídeo que meu amigo Paul (um colecionador de filmes B que possuía desde coisas obscuras como "Billy the Kid vs. Dracula" e "Incridible Strange Creatures Who Stopped Living and Became Mixed Up Zombies", até clássicos como a série de filmes feitos por Ed Wood. Uma coletânea de preciosidades de valor inestimável. Pelo menos para ele. . . ). O cardápio cinematográfico daquela tarde não era dos mais promissores (se não me engano a história era sobre uma múmia da Amazônia que escapava de um museu em Nova Iorque e matava todos os frequentadores de uma discoteca local. Tudo ao som daquelas velhas músicas dance dos anos setenta. Coisa finíssima). De qualquer forma, a minha idéia era assistir aquela coisa só para passar o tempo. Algo para me ocupar a cabeça enquanto não aparecia algo mais interessante para fazer, entende?

Foi exatamente nessa hora que a campainha tocou. Era Pamela, uma das minhas atuais namoradas e, no momento, a única oficial (Ah, por favor. . . não me venha com essa cara de indignado. Você deve saber tão bem quanto eu que ninguém mais é fiel hoje em dia. . . ). Bem, ela entrou chorando, discutiu comigo por causa de um assunto banal do qual eu se quer me lembrava, pegou de volta o CD do Pearl Jam que havia me dado de aniversário e foi embora batendo a porta e fazendo tremer todos os meus quadros do Nirvana. Tudo isso em menos de cinco minutos.

O mais engraçado é que isso também era extremamente normal. Acontecia pelo menos duas vezes por mês. E era sempre do mesmo jeito: ela brigava, discutia, me acusava de um monte de coisas, armava o maior escândalo, pegava de volta alguma coisa que tinha me dado (dessa vez foi o CD, da outra foi uma camisa de flanela vermelha e verde que ela tinha me dado no dia dos namorados) e depois voltava em cerca de quarenta minutos para pedir desculpas e fazer as pazes. Parecia um roteirozinho de filme mexicano vagabundo. Daqueles que costumam passar na TV a Cabo às vezes. Tinha sido sempre assim. Todas as vezes.

Agora responda com toda a sinceridade: Como é que eu podia imaginar que, justamente daquela vez, ia ser diferente? Que à partir daquele momento tudo passaría a dar errado, que nada sería como antes?

Que aquela discussãozinha simples e imbecil podia se tornar a causa da minha própria morte?

* * *

Querido Diário.

Eu e a Susan sempre fomos grandes amigas. De verdade. Quer dizer, quando você conhece alguém há muito tempo acaba tendo um certo tipo de cumplicidade. Nós não temos segredos uma com a outra. Jamais mentimos. Somos amigas MESMO.

Foi por isso que ela me contou tudo sobre o B. J. Ela não é como a Dana, que sabia de tudo e nunca me disse nada. Não mesmo.

A gente tava justamente no shopping comprando uma camisa nova pra ele quando ela me deu a notícia. Se soubesse antes não tinha nem me dado ao trabalho de sair de casa. . .

O que ela me contou foi que o B. J. tava saíndo com mais três meninas além de mim. E uma delas era a nojenta da Sarah Derkins. Dá pra imaginar uma coisa dessas?

Assim que fiquei sabendo fiquei LOUCA de raiva. Na hora mesmo resolvi que tinha que falar com ele. Desta vez ele ia ter que ouvir TUDO que eu tinha pra falar. TUDO MESMO.

Fui até o prédio de carro com a Susan mas ela foi embora logo depois. Disse que eu tinha que resolver isso sozinha. Subi pelo elevador e acho que fiquei pelo menos uns três minutos parada em frente à porta do apartamento dele. Eu chorava muito, minhas mãos tremíam e eu não conseguia tocar a campainha. Acho que nunca fiquei tão nervosa!

Quando consegui tocar ele veio rapidinho. Acho que até já sabia que era eu. Ele tava lindo! Por pouco não esqueci de tudo e beijei ele ali mesmo. Mas quando lembrei do que a Susan tinha me dito e tentei imaginar ele beijando a Sarah Derkins, a raiva voltou com toda a força e eu entrei.

Falei tudo o que devía e mais um pouco. B. J. ficou totalmente sem ação. Parecía que ele quería dizer o quanto me amava, mas não tinha coragem. Bem, eu tinha que continuar com aquilo, então peguei de volta o CD do Pearl Jam que eu tinha dado de aniversário e fui embora batendo a porta. Peguei o CD só porque sabía que ele ia sentir falta. E eu nem gosto de Pearl Jam.

Foi na rua que eu encontrei o Sr. D. O nome era estranho mas ele era lindo! Era BEM mais velho que eu, acho que tinha uns vinte e dois. Usava um sobretudo preto maravilhoso e uma calça jeans preta bem colada. E também tinha um chapéu que dava assim um. . . ar de mistério.

Ele me viu chorando, se apresentou e perguntou o que tinha acontecido. Eu contei pra ele o que o B. J. tinha feito. Ele pediu pra que eu me acalmasse e disse que ia comigo conversar e acertar as contas com o B. J. Eu disse que tudo bem, que era uma boa idéia. Que a gente podia MESMO subir até lá.

Bem, não foi uma boa idéia. Eu devía ter entendido o que ele quis dizer com "acertar as contas".

* * *

Creio eu que desde tempos remotos e longínquos dentro da conturbada e, até certo ponto, absurda história da humanidade os seres humanos se perguntam sobre a natureza humana. Quais os padrões etéreos ou divinos que rejem nossas ações e pensamentos? O que é indiscutívelmente CERTO e o que é ABSOLUTAMENTE errado?

Foi sua incapacidade de entender o que realmente acontecia debaixo de seus próprios narizes que fez com que resolvessem então CRIAR um padrão que pudesse se tornar facilmente identificável e inteligível a todos. Algo que pudessem compreender sem muitos mistérios. Que pudesse colocar uma ORDEM no que se tornaría inexorávelmente CAÓTICO.

E foi deste modo que nasceram as leis, os rótulos e estereótipos criados pela
humanidade. Desde a suposta existencia divina, na qual eles se encontram surpreendentemente corretos, até os regulamentos que rejem a sociedade tornando -a viciada em seus próprios arquétipos.

Complicam algo que devería ser extremamente simples. Negam a resposta que parece óbvia simplesmente porque a verdade seria capaz de destruir qualquer vestígio de racionalidade.

E a resposta é esta:Não há moral na natureza humana. Não há padrões etéreos ou divinos. Há somente o INSTINTO, a força que reje não só a humanidade como TODOS os seres vivos deste e de outros mundos. Condenam um assassino à pena de morte simplesmente por ter matado outro ser humano. Somente porque seguiu seu INSTINTO.
Se um humano mata outro é porque a vítima era mais fraca. E se era mais fraca merecía morrer. É a famosa teoría da seleção natural de Darwin. E é deste modo que costumo agir na maioria das vezes. Sem restrições morais que servem somente para acorrentar o animal hediondo que existe dentro de cada um de nós. Deus plantou o homem, mas havía um verme dentro da semente. . .

Embora o instinto deva ser seguido impreterívelmente, creio que cada vítima deve ser escolhída cuidadosamente. Particularmente prefiro as mulheres, que são mais belas, tem um gosto mais doce e costumam gritar maravilhosamente em seus últimos momentos. Depois de um tempo acaba -se adquirindo a útil habilidade de identificar uma boa vítima à distância. É como se um alarme soasse toda vez que isso acontecesse.

E o alarme soou quando vi a pequena Pamela, chorando e tremendo em desespero. Era muito jovem, é verdade, mas o sabor de seu medo era doce e saboroso demais para ser ignorado. Não pude resistir. Tive que me aproximar.

Pelo que entendi ela havía tido uma séria desavença com o namorado, um rapaz chamado B. J. Ela parecía extremamente aflita, precisava de compania e quería VINGANÇA. Talvez fosse incapaz de dize -lo em voz alta ou de admitir para si mesma tal fato, mas era isso que ela quería. Podía ver em seus olhos.

É claro que seres da minha espécie não são dados a fazer favores a quem quer seja, mas aquela oportunidade em particular me parecía algo único. Podería completar todos os meus objetivos de uma única vez e ainda pregar uma peça em nosso jovem B. J. Além disso aquilo tudo prometía ser memorávelmente divertido.

E responda -me sem medo, meu caro: Há algo que fascine mais um DEMÔNIO do que DIVERSÃO?

* * *

Bem, depois que Pamela saiu não havía muito mais o que fazer além de esperar ela voltar (o filme além de ruim era comprido demais e ela iría acabar me interrompendo quando chegasse de volta com seu discurso de reconciliação plenamente decorado). Encostei a cabeça no braço do sofá e adormecí. Na verdade apaguei como uma pedra. Provavelmente esta foi uma das consequências do baseado que eu tinha fumado no banheiro vinte minutos antes (OK, ok. . . Vamos dizer que eu ainda cultivava o hábito de experimentar periódicamente). E tive um sonho bem esquisito.

Sonhei que estava numa cama enorme, com cinco mulheres (Não vou entrar nos detalhes sórdidos. Acho que dá para imaginar o que eu estava fazendo com elas). Dava para sentir na pele o toque de cada uma delas (e nem queira imaginar onde elas colocavam a mão). Provavelmente era a coisa mais real que eu já tinha experimentado num sonho.

Bem nessa hora eu ouvi um som forte, como o de um trovão ampliado por um enorme amplificador Marshall, e todas as mulheres se juntaram numa só ( a forma como a cena pareceu me lembrou um daqueles desenhos de massinha que eu costumava assistir quando era menor, enquanto minha mãe fazia o café da manhã). Esta nova mulher, resultado da fusão de todas as outras, era alguém que eu conhecia muito bem.
Era Pamela.

Ela me abraçava e beijava de um jeito que nunca tinha feito antes (Por que esse tipo de coisa só acontece em sonho?), dizia que me amava e que queria ficar comigo para sempre. Até aí tudo bem. Se o sonho tivesse continuado nesse ritmo eu provavelmente acordaría com uma certa parte do corpo em "posição de sentido" e com uma mancha enorme no sofá para limpar mais tarde. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

A "coisa-que-era-Pamela" (é melhor chamar desse jeito, já que não era mesmo a verdadeira Pamela) colocou a mão no meu rosto e começou a deslizar os dedos pelos meus lábios. Seus dedos foram entrando dentro da minha boca lentamente até que sua mão inteira estivesse lá. Ela continuou forçando, empurrando o braço que descia como uma daquelas enormes cobras sul americanas. Dava para sentir a mão passando pela minha garganta, escorregando como um sabonete pelo esôfago e empurrando as paredes internas como um sinistro "carro abre -alas". Nessa altura praticamente seu braço inteiro estava dentro de mim. Eu quería reagir mas não conseguía. Não havía como escapar.

Quando ela finalmente alcançou o fundo, suas unhas se fecharam como garras sobre meus intestinos (isso é nojento! ). E então ela puxou. O som me lembrou mais ou menos o barulho que meu avô fazia quando arrancava uma cenoura do chão na velha fazenda da família. Desnecessário dizer que, mesmo no sonho, aquilo doeu pra caramba.

Foi nessa hora que eu escutei um segundo trovão. E acordei. . .

Se soubesse o que ia acontecer, juro que tinha continuado dormindo.

* * *

Como eu disse, o Sr D. subiu comigo. Ele era tão gentil e falava de um jeito
tão. . . tão culto! Sabe que se eu não gostasse tanto do B. J. eu até ficava com ele?

Mas isso não importa agora né? Bom, a gente chegou na frente da porta do apartamento do B. J. e tocou a campainha. Mas ele não respondeu! Provavelmente já tinha corrido para a casa da Sarah Derkins! Mal tinha terminado comigo e já tinha corrido para os braços da outra!

Eu já tava pensando até em desistir e ir embora mas ele segurou a minha mão de um jeito tão forte que eu desisti da idéia. Senti como se meu braço tivesse formigado quando ele encostou na minha mão. . . não dá para explicar direito. . .

Aí foi que aconteceu uma coisa super estranha. . .

O Sr. D mecheu a mão como se estivesse espantando uma mosca chata. . . E a porta saiu voando fazendo um barulhão! Acho que sei o que aconteceu mas não vou contar agora. . .

Então ele entrou no apartamento do B. J. e eu fui seguindo atrás, é claro! O B. J. tava deitado no sofá mas já tava começando a levantar. Fiquei só olhando para ele. Queria saber se ele tava surpreso em me ver. E tava mesmo!

Achei que daquela vez ele nem esperava que eu voltasse tão rápido. Ele olhava para a minha cara com um ar espantado, como se tivesse tomado um enorme susto. Achei que daquela vez eu tinha ganho a disputa. Tinha certeza que ele havia percebido o quanto me amava e que nunca mais ia se quer falar na Sarah Derkins. Sabia que aquela cara de bobo que ele fazia não era de medo. Era de paixão!

Pelo menos foi o que eu achei. Pelo menos té olhar para o lado e ver o Sr. D. segurando uma enorme espingarda daquelas que o meu pai usa para caçar nos feriados.
Pelo menos até ele apontar a arma para o B. J. . .

* * *

Tudo bem, eu confesso que estava REALMENTE assustado naquela hora. Acho que qualquer um ficaria. Não é todo dia que um maluco de sobretudo e chapéu invade sua casa em compania da sua namorada. Ainda mais em plena segunda-feira.

Acho que o mais difícil foi entender o que estava acontecendo. Além da desorientação natural causada por aquela situação fora de propósito (droga, o cara tinha arrebentado a minha porta!) ainda tinha o sono. Se me lembro bem, cheguei a pensar por um instante que ainda não havia acordado daquele maldito pesadelo

O fato é que logo em seguida comecei a me sentir dentro de um maldito conto do Stephen King ou num daqueles programas onde a câmera fica escondida enquanto os outros passam ridículo em público para a diversão de milhares de espectadores. Passou pela minha cabeça também que aquilo tudo podia ser um simples trote. Uma peça que Pamela havia resolvido pregar em mim em troca do meu "comportamento conjugal adolescente não convencional". Talvez Paul estivesse metido nisso também ( ainda lembro quando ele sumia durante as "Sessões Sexta Feira 13"que fazíamos em sua casa, somente para voltar fantasiado de Jason ou de Freddy Krugger. Era engraçado como as garotas se assustavam com aquela palhaçada. . . ).

A verdade é que tudo isso era um meio mais ou menos fútil de tentar fugir da realidade e ignorar aquela vozinha chata bem no fundo do meu cérebro que dizia: "Ei ,cara! Não quero ser chato mas isso aqui. . . bem, não sei como te dizer, mas o que está acontecendo aqui não é nenhuma abstração da sua mente retardada amiguinho. Isso é beeeem real". Eu ainda lutava para me segurar no conceito de que tudo não passava de uma versão "real life" de Além da Imaginação. Que era tudo de mentirinha. Mas aí. . . bem, aí eu vi a arma.

Era um rifle de caça calibre doze que o tal cara havia tirado debaixo do sobretudo. Não sei de onde aquela coisa surgiu exatamente (bem, AGORA talvez eu saiba) mas a coisa estava lá. Não sei porque, mas aquele cano atípicamente negro e reluzente me lembrava uma serpente prestes a me engolir. E ele apontava a arma para mim.

Daí para diante tudo aconteceu em câmera lenta. Tentei sair do sofá de uma maneira idiota e desajeitada. Meu braço esquerdo esbarrou no pacote de Sucrilhos. Os flocos de milho açucarados (com mais vitaminas e ferro!) tombaram próximos à embalagem já vazia do suco de laranja como uma enorme tempestade de neve repentina. O braço direito bateu no abajur da mesa de canto. Meus pés se enroscaram no tapete e eu caí de cara aos pés do homem-de-sobretudo-e-chapéu.

Levantei -me, ainda com aquela sensação de "slow motion". Até meu pensamento parecia mais devagar. Parece estranho falando deste modo, mas eu podia ver todos os detalhes naquela sala como se tudo fosse apenas um cenário congelado numa das fitas de vídeo do Paul. Olhei para o rosto do tal cara (uma mistura estranha do Clint Eastwood de "Os Imperdoáveis" e o Robert De Niro de "Cabo do Medo"). Olhei para os quadros na parede, para a marca de argila seca na parede perto do outro sofá (da época em que minha mãe ainda insisita em achar que tinha algum talento para escultora), para os posters do Nirvana e o olhar distante de Kurt Cobain. Olhei para Pamela e de novo para o cara.

Vi a mão dele se movendo para o gatilho. Ouvi o mecanismo da arma funcionando.

E então ele atirou.

A bala me atingiu na altura do peito destroçando minhas costelas como se fossem uma gaiola para passarinhos feita de bambu. A massa que costumava ser meus pulmões e os outros órgãos escaparam pela saída de emergência recém aberto bem no meio das minhas costas, formando uma mancha disforme e vermelha que dificilmente vai sair da parede antes dos próximos cinquenta anos. Meu corpo se moveu num arco como se tivesse batido de frente com uma Ferrari e atingiu o sofá. O móvel caiu para trás e minha cabeça bateu no frio chão de madeira.

Fiquei ali deitado, tentando respirar como um porco com asma e olhando para cima com os olhos vidrados. Tentei falar alguma coisa (qualquer coisa!) mas o sangue se acumulava na garganta e eu engasgava toda vez que tentava articular uma palavra. Tudo o que conseguia era pensar em todas as pragas e palavrões que havia aprendido durante meus anos de escola. E em como Pamela era linda, Deus do céu! Eu queria viver, casar com ela, ter vários filhos, levá -los ao jogo, comprar um seguro , uma TV de 33 polegadas , um carro do ano, uma casa de campo e. . . Deus, ela era linda!

Procurei o olhar de Pamela e encontrei o de meu executor. Ele olhou para mim por alguns instantes com aquele olhar semicerrado à la Clint Eastwood, como se toda a fumaça do mundo estivesse entrando direto nos olhos dele. Então o homem -de -sobretudo -e -chapéu estendeu sua mão em minha direção. Me esforcei ao máximo e ouvi o som de pelo menos mais meia dúzia de ossos se quebrando enquanto fazia isso, cuspi mais uma pequena poça de sangue coagulado e retribuí o gesto dele. Nossas mãos se tocaram.

E eu morri.


Cheers!

T.

8 comments:

Erion said...

mto legal o conto =D axo q vc so nao tirou 10 pq tinha MUITA citaçao de filmes/atores, oq acaba fazendo com que pessoas q nao viram tdos esses filmes (eu por exemplo) fiquem boiando nessas comparações xD. Mas ta mto r0x =) espero a segunda parte ^^.

Kero said...

Nossa... eu jamais achei que iria ler isso de novo. Li na finada Dragão Brasil e fiquei maluco na época. Parabéns mesmo. =)

Rafael said...

Ha! O conto que marcou minha adolescência nerd. : )

Guilherme said...

Bah!
Não conhecia esse ainda.
Realmente muito bom.

(Me identifiquei com o grungezinho.)

x)

Haniel said...

Também não conhecia esse. \o\

Saiu em qual DB?

Rey Jr said...
This comment has been removed by the author.
Rey Jr said...

Eu sempre achei este um de seus melhores contos.
Na verdade meu "Top 3 Contos da DB" é: (Não lembro o titulo dos contos)

- O do moleque que jogava uma sessão de RPG sinistríssima num EIRPG.

- Um de um cara que se atirava de um prédio dizendo a pessoa não morria durante a queda, que ele ficou conciente até o ultimo metro. Ou coisa pareida.

- Este do Grungezinho que se arromba.

Muito legal.

Rafael said...

Esse conto saiu em uma "Só Aventuras", se não me engano a 5 ou a 6.

Eu curtia as ficções lovecraftianas do Causo também. Bons tempos aqueles.