Tuesday, May 20, 2008

Dicas de Mestre Reloaded!

Eae!

Esses dias saiu um debate interessante lá no Área RPG sobre terror e suspense na mesa de jogo.

Um dos membros me lembrou de um antigo Dicas de Mestre que escrevi em 2001 e resolvi fuçar pra ver se encontrava o dito cujo. E não é que achei?

Abaixo segue o texto na íntegra. Vai que alguém aproveita de algum jeito. Se a resposta for boa, posso caçar mais velharias por aqui.

Dicas de Mestre – Terror e Suspense: Indo Além do Mundo das Trevas


Há quase um ano e meio, no penúltimo Encontro Internacional de RPG, um rapaz me abordou com dúvidas à respeito de Temporada de Caça, nosso suplemento não-oficial de Vampiro: A Máscara.

- Trevisan – disse o rapaz – Eu tenho uma dúvida...O Ceifador é um Desaurido?

- Hmmm...não que eu saiba. Ele é o Anjo da Morte e sequer tem ficha de personagem.

- Ahhh...mas ele podería ser um Desaurido, não poderia?

Grande parte dos jogadores de RPG tem a tendência (e não estamos falando de AD&D) de tentar “encaixar” as coisas dentro da lógica do sistema em que o cenário está sendo utilizado. Assim, se o Ceifador foi feito dentro do Mundo das Trevas de Storyteller, é imperativo que ele seja colocado e explicado como uma das criaturas que já existem oficialmente. Correto?

Não. Nem um pouco.

Existem excelentes RPGs de terror e suspense no mercado, mas é um desperdício de talento e criatividade imaginar que não se pode (e não se deve!) fazer nada de novo dentro destes sistemas. Existem várias possibilidades que passam a ser negadas quando o Mestre se limita a aproveitar somente o que é oficialmente explicado e o que as regras permitem. O terror e o suspense podem ir muito além disso.

O SISTEMA DE JOGO COMO FERRAMENTA

Antes de tudo é preciso entender uma coisa: o sistema de jogo e as regras inclusas nele são, nas mãos do Mestre, nada mais do que ferramentas para se contar uma boa história. Se você não concorda com uma regra, descarte-a. Se ela impede que você crie um NPC memorável, distorça-a. É a aventura que molda o sistema de jogo, não o contrário (mesmo assim é desnecessário dizer que o equilíbrio dentro do jogo deve ser mantido).

Quando criei o Ceifador, o líder de um levante contra os vampiros e principal articulador por trás dos Clubes de Caça, imaginei apenas as motivações do personagem: ele é o Anjo da Morte e caça vampiros porque estas criaturas já terminaram seu ciclo de vida na Terra. Um vampiro, aos olhos do Ceifador, nada mais é do que alguém que “passou a perna na Morte”. Seu objetivo é corrigir isso.

Não achei nada que se encaixasse nesse perfil dentro do Mundo das Trevas...o que era ainda melhor, já que me dava a possibilidade de acrescentar algo totalmente novo e que (ainda bem!) acabou dando certo. Se nós (eu, Cassaro e Rogério) tivéssemos parado justamente porque as regras não permitiam algo como o Ceifador ou simplesmente não se adequavam ao personagem, talvez não tivéssemos criado Temporada de Caça.

É possível ir ainda mais longe e criar novos padrões de terror e suspense utilizando qualquer um de seus sistemas preferidos. Basta tomar uma outra liberdade na hora de montar a aventura e os NPCs.

Sendo assim, antes de tudo, livre-se de todas as encanações à respeito das regras. E esqueça tudo o que sabe sobre, digamos, o Mundo das Trevas. Se depender de nós, ele jamais será o mesmo.

SUSPENSE DE VERDADE

Existem algumas vantagens para o Mestre quando os jogadores já conhecem bem o sistema em que estão jogando. Entretanto, o fator suspense sofre sensívelmente com isso. Cá entre nós, você acha mesmo que um grupo de personagens de Vampiro iria se surpreender ao descobrir que, no final de uma cronica de meses, quem estava por trás de tudo era um ambicioso e ancestral vamprio Tremere?

Colocar elementos novos traz o suspense de volta à aventura. O que nos deixa apreensivos à noite, com as luzes apagadas é justamente o sentimento de que há muito mais no mundo do que os olhos podem ver. É a consciência de que, mesmo soberanos no planeta, não fomos capazes ainda de descobrir sequer 10% dos mistérios que ele nos apresenta. Essa mesma sensação deve ser passada sempre para os jogadores.

Um mágico só se mantém eficiente enquanto o segredo de seus truques está a salvo, certo? Com um Mestre de jogo a regra também pode funcionar. Apresente os desafios, faça inovações mas jamais, jamais explique para os jogadores porque aquilo aconteceu ou “o que diabos era aquela criatura que levantou Bradley com apenas um olhar”. Esse é o segredo dos principais filmes e livros de suspense.

Vejamos Arquivo X, por exemplo. Se você é fã da série tente se recordar de quantos mistérios foram realmente explicados em todos estes anos de série. O episódio em que Eugene Tooms aparece é um ótimo exemplo. O homem era capaz de se esticar e entrar nos espaços mais estreitos. Era uma criatura predadora que precisava hibernar de tempos em tempos após se alimentar...mas o que diabos ele era? Porque precisava fazer aquilo? Não se sabe. Hipóteses são apresentadas mas nada é realmente concluído.

Usando um exemplo esdrúxulo e exagerado, é como a cena do filme Magnólia onde, sem mais nem menos, centenas de sapos começam a cair do céu numa verdadeira chuva. Não há explicação ou lógico para o fato, mas o diretor achou que aquilo ia funcionar para surpreender o espectador.

Jogadores de RPG tendem a dissecar tudo na forma de regras e fórmulas. Negar isso como Mestre deve ser o suficiente para deixá-los na ponta de suas respectivas cadeiras.

Portanto, se você acha que algo não está nas regras ou nos padrões mas crê que irá acrescentar mais suspense e emoção à sua aventura, então “que chova sapos”. E que os jogadores se matem para explicar o fato...

Há meios de se levar nosso método ainda mais longe.

Tempos atrás pensei em começar uma campanha de Storyteller com meu grupo...mas com algumas diferenças. A idéia é que todos os personagens fossem humanos normais. Nada de vampiros, lobisomens, magos ou qualquer outro desses. Minha idéia era, aos poucos colocá-los frente a acontecimentos bizarros e sobrenaturais...mas sem usar nada do cenário da White-Wolf! É um modo de quebrar a expectativa dos jogadores. Afinal, se você começa como humano numa crônica é porque logo alguém vai aparecer e transformá-lo em vampiro, certo? Certo?

Aproveitando apenas o sistema de regras você tem todo um cenário (e as suposições dos jogadores) para brincar e criar. Uma ótima referência para este tipo de abordagem são os livros de Stephen King.

King é perito em levar personagens normais de encontro a eventos bizarros. Além disso, suas histórias têm o ingrediente “aventuresco” indispensável para uma aventura de RPG.

Seu grande segredo é aproveitar-se de coisas e situações corriqueiras. Em Christine um espírito toma conta de um antigo carro e passa a exterminar os inimigos de seu dono (pode parecer estúpido à primeira vista, mas o livro é incrível. Passe longe do filme, entretanto). Em A Coisa, um grupo de garotos enfrenta uma criatura sobrenatural que incorpora toda a maldade existente numa pequena cidade norte-americana. Em Trocas Macabras, um velho comerciante vende desejos em toca de favores, incendiando velhas divergências e jogando os habitantes de uma cidade uns contra os outros (o final é um dos melhores que já li). Todos estes exemplos serviriam como ótimas aventuras.

Outros autores, como Clive Barker (embora não seja um dos meus favoritos) e Edgar Alan Poe e quadrinhos como Hellblazer, Monstro do Pântano e Preacher também servem como ótimas referências.

Para os mais avançados, existe também a possibilidade de se utilizar do suspense por si só, sem artifícios sobrenaturais. SEVEN, por exemplo, é um filme que mostra que não há nada mais assustador do que um ser humano disposto a provar um ponto de vista a qualquer custo. Nesta linha mais “humana” até os clássicos de Hitchcock podem servir de inspiração. Basta usar a e cabeça não deixar que, em momento algum, as regras sirvam de obstáculo para a sua criatividade.


Cheers!

T.

3 comments:

Damaran said...

Bom tópico. Me lembrou uma discussão que tive numa mesa de D&D bem semelhante (em relação à mudanças de regras, etc).

Abraço

Gigadwarf said...

Finalmente entendi o que é aquele "logo". É um benjamim, não é?

E pode caçar as velharias sim... relembrar é viver.

Filósofo de Boteco said...

"ele é o Anjo da Morte e caça vampiros porque estas criaturas já terminaram seu ciclo de vida na Terra" - Hmmm...ele podia ser um Euthanatos.

Mas realmente as regras às vezes te engessam, impedindo de contar uma boa história...aí o negócio é passar por cima mesmo e se divertir

Nem tudo precisa ser explicado, eles q fiquem com dúvidas e levantem suas hipóteses...