Monday, December 10, 2007

Drink Up Me Hearties, Yo Ho!

Ahoy!

Faz algum tempinho trombei com um site que disponibilizava material de Tormenta escaneado (ilegalmente). Uma coisa que me chamou a atenção, porém, é que não parecia exatamente um site de nerds-pseudo-revolucionários-contra-o-sistema, mas uma coisa meio de fã para fã. O que ajuda, explica, mas também não justifica. Pirataria é uma coisa bem complexa.

O que eu fiz foi deixar um recado para o dono do site, dando uma força no que diz respeito ao material publicado pela Talismã (afinal de contas, eles nao me pagam mais direito autoral) mas pedindo para evitar o material da Jambô, já que uma parte do que eu ganho todo mês vem exatamente das vendas destes livros.

O dono do site deixou um recado aqui no blog alguns posts atrás. Como ainda não tinha rolado a disposição de escrever um post longo (porém necessário) como esse até agora, vou aproveitar para comentar.


Amigo Trevisan,
(sou fã do cara e tô chamando ele de amigo..hehehe)

Agradeço o apoio e incentivo para publicarmos o material da época Talismã/Melody.
Pretendo adicionar mais conteúdo desta época, para o blog.

Quanto ao material recente, publicado pela Jambô... Informo que não tenho intenções de prejudicar o trabalho do "Trio Tormenta", o qual admiro. Por esse motivo, caso você prefira, irei remover esse conteúdo.

Vale mencionar que por causa dessas versões digitais, muitos começaram a conhecer o RPG e até compraram a versão impressa.

Lembro que o blog não comercializa seu conteúdo, se reservando apenas em compartilhar "arquivos" encontrados na internet.

Desta forma, não sei se trata propriamente de pirataria...mas isso é assunto para outros comentários.

Abraços e obrigado por suas boas idéias,

att,
Freeman!


Como eu disse, trabalho de fã para fã...mas que é sim pirataria. Mas antes de colocarmos nosso amigo (por que não?) Freeman para andar na prancha, vamos analisar alguns fatos sobre pirataria que normalmente são esquecidos.

O lance do "arquivo como propaganda" é real, e não histórinha de pirateiro tentando justificar seus atos. Experiência própria.

Na época em que trabalhava na Mantícora comecei a baixar duas séries em quadrinhos gringas: The Walking Dead e Invincible. Na época, um rapaz chamado Renato queria diversificar os produtos da editora com a publicação de quadrinhos. Mostrei algumas edições dos dois trabalhos e ele adorou: ficou combinado que íamos tentar trazê-las para o mercado nacional. No fim das contas ele acabou saindo da Mantícora, mas tanto Invincible quanto The Walking Dead saem hoje em português pela HQManiacs graças ao Renato e aos meus arquivinhos piratas.

Ainda esse ano passei pela Livraria Cultura da Paulista e vi um encadernado capa dura com as doze primeiras edições (gringas) de The Walking Dead. Paguei 70 reais e levei pra casa mesmo já tendo lido. Mesmo tendo todos os arquivos digitais no meu HD.

Outra coisa: pouca gente tem saco de ler na tela do computador. Eu já cheguei a ter sei lá quantos giga de material de RPG em pdf. Quantos desses livros eu efetivamente li, de cabo a rabo? Nenhum. A maioria, na real, eu baixava ou por curiosidade ou por saudosismo. É mais uma questão de poder mandar um mail pra um amigo e dizer "cara, você não acredita no que eu baixei ontem!" do que de realmente precisar ou aproveitar o material baixado.

Mais uma: nem todo mundo tem internet rápida. E como eu disse lá em cima, ler no micro é um saco. Ou seja: o impacto nas vendas, pelo menos para a gente, não é exatamente uma catástrofe.

Se fosse só isso, seria uma maravilha. Mas existem, óbviamente, outras questões.

Poucos leitores sabem como funciona exatamente o pagamento dos autores no caso de direitos autorais. Pois bem. Autor de livro em geral recebe 10% do valor de capa para cada exemplar de livro vendido. Se há mais de um autor, a porcentagem é dividida. Pois digamos que amanhã saia um novo suplemento de Tormenta chamado "Kobolds e Carrapatos", escrito por mim, pelo Saladino e pelo Cassaro, e que o preço de capa seja 30 reais. Aplicando a porcentagem temos 3 reais que serão dividos por 3. O que dá a fantástica quantia de UM REAL para cada autor a cada exemplar de livro vendido.

Se você considerar o trampo que dá criar e escrever o tipo de material que a gente escreve fica fácil concluir que a grana é ridícula. Mas hey, ninguém enfiou uma arma na minha cabeça e me obrigou a ser escritor de RPG certo?

A conclusão mais fácil é culpar as editoras por embolsarem a grana que a gente devia estar ganhando, mas a coisa não é tão preto no branco assim. O custo de um livro é elevado. O papel sobe o tempo inteiro. A tinta da gráfica sobe. Distribuição não é exatamente uma coisa barata ou fácil de se lidar. E por aí vai.

O esquema de porcentagens é o mais justo na real: se você vende pra cacete, ganha dinheiro pra cacete. Se não vende, fica de mãos abanando. Sem esquecer que quem realmente corre o risco de tomar prejú é a editora que bancou o material. No fim das contas, dentro de um mercado do tamanho de uma ervilha como é o do RPG brasileiro, a gente até que vende bem. Não gosto de cravar dados sem ter um apoio formal, mas informalmente sei que - por incrivel que possa parecer para os detratores e puritanos de plantão - Tormenta vende mais que Forgotten.

Tudo isso é pra dizer que, se por um lado existem todos os fatos legais da pirataria que eu citei no começo, o realzinho que vai embora quando alguém baixa o livro e desencana de comprar é meu. É pouco, não dá pra pegar um metrô em Sampa ou comprar um Halls na Paulista, mas é meu e - embora tenha sido divertido - eu trabalhei por ele.

De qualquer forma, o intuito desse post não é fazer uma declaração anti-pirataria porque, como eu disse, é um assunto complexo. Existe todo um comportamento moralista velado no meio do RPG, em que ninguém baixa nada e no qual o assunto pirataria é mais censurado que filme brasileiro na época da Ditadura (embora existam, sim, pessoas que realmente não baixam nada ilegal), mas acho que seria hipócrita e escroto da minha parte simplesmente sair proibindo e dando tiros pro alto quando visse um site com material meu para download quando eu acabei de baixar o CD extra do novo trabalho do Radiohead e continuo acompanhando minhas séries em quadrinho preferidas via DC++.

A única exceção que eu faço é à edição de "O Inimigo do Mundo" que caiu na rede, pelo simples fato de que é uma versão preliminar, com diagramação ruim, sem a última revisão e que não faz jus à versão final. Além disso, romances de fantasia inspirados em RPG e do porte que a gente vem publicando ainda fazem parte de um território meio inexplorado, onde cada livro vendido realmente conta de verdade.

No que diz respeito ao resto da material, acho que vai da consciência de cada um botar no ar ou não.

Agradeço ao Freeman pela consideração e por ter colocado as Revistas Tormenta no ar. É mais fácil consultar em pdf do que fuçar minha pilha de revistas.

Cheers!

T.

9 comments:

Phil Souza said...

Salve Trevisan! Boa pedida rapaz! Já vi um blog de HQs falar discaramente que nunca baixou nada na internet, que nunca baixou um filme, que nunca fez nada nesse sentido... Lógicamente cairam em cima dele e com razão.

É difícil, mesmo que por curiosidade você pega alguma coisa e como você disse, ha esse lado, ha essa propaganda que é super interessante.

Muito bom o post, abraços!

Dados Limpos

Sacerdotisa said...

Saudações,
chamo-me Tainá e nós tivemos a oportunidade de nos conhecer no 2ERPGA em Araraquara, se bem que mal trocamos duas palavras, eu sou aquela garotinha afobada que não sabe fazer monstros, mas eu to aqui mesmo para te pedir um favor. Não sei se eu cheguei a falar com você, mas eu disse para o Caldera que eu estava fazendo um livro, bom, comecei a colocar algo na internet sobre , bom, avisa para ele ele e se vc quiser dá uma passadinha lá por favor.
ps: desculpe os erros de portugues, o pc deu pane e eu estpou escrevendo às cegas, não da pra ver nenhuma letra.
pps: o meu blog é: http://launier.blogspot.com/

Julio Matos said...

Ultimamente esse teu blog virou a Porta da Esperança!

DEOS NOS DEFENDA!

Pedro said...

É complicado mesmo, só esse post já seria o inicio de uma discussão judicial.
Eu por exemplo sou um dos que se aproveita desses materiais para ver se é bom e só depois comprar o livro.
Mas outro aspecto são os livros que não chegam ate o publico como alguns suplementos de GURPS e mesmo o proprio GURPS 4ª ed. que já conta alguns anos que vem sendo prometido, e enquanto as editoras não fazem os lançamentos oficiais a galera se vira com as versões em inglês que circulam na net.
Mas pelo menos o sábio Dr.Careca se saiu bem com seu caso de "fã pra fã".
Demoro pra sair um post grande.
Por isso merecia um comentario à altura(em tamanho) XD

Ate mais...

JMTrevisan said...

Pois é.
11 comentários pra falar da porcaria do Corinthians e 3 pra falar de assunto sério...

Victor said...

Sou RPGista de "velha guarda" (hein?) ou "Oldiscul" como dizem, e em nome da minha turma gostaria de acrescentar:

FORGOTTEN REALMS É UMA MERDA!

E eu não conheço Tormenta, e confesso que mangá e afins não é bem o meu estilo (se Tormenta não é isso - como disse, não conheço!), mas é feito aqui, então fico muito feliz de saber que vende bem. Mais do que isso - fico feliz de ver *alguém* nesse mercado dizer que *algo* vende bem. De lojistas a editoras, parece até que todos publicam os livros por estarem pagando algum tipo de promessa, já que "nada vende..."

Pirataria: Complexo mesmo. Mas acho que qualquer solução começa tirando a "culpa" do público e tentando entender porque eles buscam o produto pirata nessa escala. Eu compro CDs originais. Muitos! E até importados... mas quando saiu o novo do Iron Maiden? Nacional? E custava 45 reais, mais caro que muito importado? Fiquei com o mp3 mesmo... Que entra direitinho no meu iPod, e fica melhor ainda no formato FLAC, sem perda de qualidade, que eu consegui achar...

Complexo, complexo!

E só postei mesmo porque apoio 100% o conceito de "Porcaria do Corinthians"...

Lê Acauan said...

Já parou para observar a tabela de carga tributária?

A carga dos livros chega á 16%!

Cara, isso é um absurdo.

Carga tributária de livro não deveria chegar á 5%.

Partindo dessa idéia, calcule, cada Inimigo do Mundo que compramos, são 7-8 reais que vão para os bolsos do governo.

É como você disse, nem dá pra culpar as editoras. Essas sobrevivem como podem.

Anonymous said...

Olá, Trevisan! Adoro o seu trabalho, mas nunca postei no seu blog.. Bom, estou postando agora! Achei muito legal como você falou de pirataria aí.. É um assunto realmente complicado.

De pirataria como meio de divulgar um produto, é verdade que funciona. Conheço muita gente que gosta de Tormenta hoje porquê baixou Holy Avenger na net, pois não há mais disponível a venda! E o material gringo de D&D custa caro o suficiente para desanimar qualquer um a comprar, principalmente livros raros que as importadoras não trazem..

Do meu grupo de RPG temos uma cópia de um de cada livro de Tormenta, mas os Básicos de D&D são piratas.. E como é só uma cópia, a maioria das pessoas baixou da net os livros de Tormenta, para ler em casa.

É complicado, mas a maioria dos estudantes não consegue comprar livros de RPG, e os pais se irritam bastante com "gasto de dinheiro numa porcaria dessa". Já o material digital, ninguém vê. Todo mundo do meu grupo leu uma cópia de "O Inimigo do Mundo", dessa de internet.

Eu pretendo comprar todos os livros um dia, mas atualmente, está bem difícil.. Então eu só tenho um.. E acredito que muitos fãs sejam assim (Ninguém quer ver uma campanha que gosta acabar por falta de vendas, afinal). Conheço gente que joga Tormenta com cópias xerox, do xerox, do xerox, de uma Dragão Brasil.. Tenho certeza que comprariam os livros se pudessem.

Um dos pontos bons dessa "pirataria" é encontrar material indisponivel para compra, como as Revistas Tormenta, que tem muita coisa importante da campanha! Eu acho uma pena ninguém fazer um "DataBook" virtual com as coisas da antiga Dragão Brasil sobre o cenário, como os contos, as aventuras antigas.. E HQs como a Dungeon Crawlers e Mercenario$..

Eu gosto de Tormenta a um ano, e não vi todo o crescimento do cenário! E boa parte do material está indisponível!

Na verdade preferiria que escaneassem as coisas antigas que as novas, que ainda se acha pra comprar..

diek said...

Sabe, a pirataria é horrível e eu acho que só se deve colocar na internet o que os autores por um ou outro motivo liberaram que é o caso do material do Trio lá na Editora XXX, mas beleza, se o pessoal se conscientizar disso, nosso mundo dos rpgs vai pra frente.